27 junho 2008

Conversa com SILO sobre a Marcha Mundial pela Paz

Conversa informal com Silo, Rafa de la Rubia e amigos sobre a Marcha Mundial pela Paz e a Não Violência (MM)


Santiago, 23 de junho de 2008. -

Assistentes: Negro, Rafa de la Rubia., Pia Figueroa., Karen Rohn, Pepe Feres., Tomy Hirsch, Julian Burgos., Dario Ergas., Robby Blueh., Pancho Granella.
(Nota: Apontamentos de Pancho G., não foram revisados por Silo)
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O bate-papo se iniciou comentando a permanência de Rafa de la Rubia em Mundo sem Guerras (MSG). Esta foi constituída por ele como organização sem fins de lucro o ano 1994 e efetuou um sem fim de atividades desde esse momento. Por conseguinte não podemos dizer que é uma casualidade que agora apareça a MM meramente como uma atividade conjuntural. É graças aos elementos compositivos que se constitui o processual e não é por contar com ações isoladas que podemos assegurar um processo.
Em referência ao tema da convocação da MM se vê necessário explicitar os diferentes tipos de violência. Não só a violência física (da qual o estado agora aparece como tendo o monopólio, em uma espécie de silogismo barato), mas também a econômica, a racial, a religiosa, a psicológica e a sexual. O lema da convocação é em positivo, não é contra da violência, é em favor da paz e da não violência.

Neste momento a MM vem como anel ao dedo, o anel tão separado que estava do dedo, pois agora é o momento adequado de junta-los.

Um aspecto importante a considerar é como será gerada a MM. Isto é o que sentará a condição de origem que depois, uma vez em marcha, será muito difícil de modificar. É uma marcha qualitativamente muito superior. Não se refere só ao tema nuclear que aparentemente é mais próximo para Europa, tudo depende de como você explique.
Uma marcha como esta é perfeita para Punta de Vacas. Encontrávamos-nos atados de mãos em relação ao terreno de baixo, isto já não é mais um impedimento. Agora se sair o terreno muito bem e não sair também estará bem. Não nos freia, já que a marcha será em P de V um só dia de Janeiro de 2010. Era muito desproporcionada a situação de depender deste terreno para nossas coisas.

Um ponto muito importante é que a MM a inicia MSG, não o MH ou outro organismo. Já a Mensagem aderiu e assim a gente ira aderindo. Então você não precisa esperar nada mais e quem não subir perde o trem. Também aparecerá muita gente dizendo: se deveria fazer tal coisa, então lhe diremos, pois muito bem, faça-a! E haverá que prescindir dos meios de difusão nisto, se pudermos contar com difusão deles bem, mas igual a fazemos, como já é história nossa, como temos feito sempre, prescindindo dos meios de difusão.

Contamos com quase um ano e meio para a marcha, para organizá-la, está muito bem este tempo prévio que dispomos. E já há uma onda circulando com muita força com este tema. Haverá então que perfilar e fixar alguns pontos mínimos.
Também se poderá dizer que uma campanha mundial não é fácil de digerir, mas claro, a gente não sabe que já se vai para a mundialização. É esta época mundializada a que permite efetuá-la, antes não teria sido possível.

Chegou o momento de fazer algo exemplar e a melhor forma de contar com a gente que vai aderindo é com a coisa exemplificadora. Desde o Marxismo que não surgia algo com projeção mundial. Marx pensava em algo mundial.
Estamos em uma época com falta de referências e a gente esta aderindo aos destemidos, às personalidades fortes. Olha o caso de Obama, que você diz: que Obama é forte ou débil? É uma personalidade forte, se vê suavezinho, mas muito firme. Assim terá que ser nossa colocação para o meio.

E será MSG quem dê o arranque. Haverá um pequeno núcleo que de continuidade à marcha, participando desde seus inícios nela. E a Comunidade terá que aderir e os demais organismos do sistema irão fazendo o mesmo, é a soma das diversidades o que o fará possível. E para os indivíduos o mesmo, se quer somar-se que ponha sua assinatura. O mínimo da adesão é o indivíduo. O menos que pode fazer é aderir individualmente, assim é a adesão pessoal. Nestas coisas você tem que tomar muito em consideração ao indivíduo, mas você vê que no final a gente não conta. Mudou a época, agora o pacifismo vai. Portanto então é preciso despejar o panorama, MSG e a MM pela Paz e a Não Violência, em positivo, não é pacifista ou anti-belicista. Há uma importante diferença entre pacifismo, anti-belicismo e não-violência. Vejamos o Dicionário, Volume II:

PACIFISMO
(do lat. pacem: paz). Princípio moral e político que reconhece a vida humana como valor social e ético supremo e que vê na manutenção da paz entre os grupos étnicos, religiosos e sociais, entre as nações e blocos de estados, seu ideal supremo. Inclui o respeito pela dignidade da pessoa humana, dos grupos e povos, e dos direitos humanos em geral. Contribui à compreensão mútua de pessoas de diferentes culturas e gerações. Rejeita a desconfiança, o ódio e a violência.
O p. é uma atitude de negação da guerra e o armamentismo. Desde a Primeira Guerra Mundial muitos tribunais, em diferentes lugares do mundo, reconheceram o direito de objeção de consciência eximindo do serviço militar a pacifistas e membros de confissões religiosas que se opõem às armas e aos instrumentos bélicos. Também os objetores de consciência promoveram campanhas mediante as quais propõem que a porcentagem orçamentária que se destina à defesa, derive para a educação e a saúde pública. As idéias de desarmamento e desmilitarização inspiraram a numerosos movimentos anti-belicistas que, freqüentemente, não alcançaram acordo pelas suas variadas concepções da realidade social e, às vezes, por divergências pontuais na aplicação de suas táticas de luta. Os grupos pacifistas estão hoje em condições de organizar frentes autônomos de base em relação com outros que propiciam a mudança social (*Frente de ação).


MOVIMENTO ANTIBELICISTA
Movimento contra as guerras e contra uma guerra concreta efetiva ou eventual. Na antiguidade as religiões universais e os sistemas éticos começaram a condenar as guerras por considerá-las como instituição contrária à vontade divina e prejudicial para a sociedade, que corrompe à pessoa humana e dissolve à sociedade. Na Idade Meia, vários movimentos populares religiosos tinham um conteúdo anti-belicista e expressavam o protesto popular, sobretudo das pessoas das vilas e camponeses contra as devastações próprias das guerras entre os feudais.
O m. a. internacional moderno nasce no século XIX e se amplia às vésperas da primeira Guerra Mundial. Quando se realizavam conferências e congressos nacionais e internacionais, surgiam organizações anti-belicistas que tratavam de impedir o estalo de uma guerra mundial e condenavam as chamadas guerras coloniais de rapina. Estes movimentos obrigaram à diplomacia internacional a elaborar uma série de normas e aprovar documentos sobre determinados procedimentos que limitavam as dimensões dos conflitos internacionais e as conseqüências das ações militares para a população civil; regularizavam a prestação de ajuda médica aos feridos, estabeleciam regras sobre prisioneiros de guerra, etc. No entanto, o m. a. não pôde prevenir as duas guerras mundiais.
Depois da segunda Guerra Mundial, o m. a. se ampliou e colocou a necessidade do desarmamento, principalmente a proibição e eliminação das armas atômicas, biológicas, químicas, etc. e também de armamentos comuns; a dissolução dos blocos militares;o fechamento das bases militares no estrangeiro e a evacuação das tropas. Este movimento alcançou seus objetivos, mesmo que só parcialmente. O fim da "guerra fria" provocou a crise do m. a.

NÃO-VIOLÊNCIA
A
n-v. costuma compreender ora o sistema determinado de conceitos morais que negam a violência, ora o movimento de massas encabeçado pelo Mahatma Gandhi que se desenvolveu na Índia na primeira parte do século XX, assim como a luta pelos direitos civis dos negros nos EUA sob a direção de M. L. King e a atividade desenvolvida por Kwame Nkrumah em Gana. Podem mencionar-se também as intervenções civis de A. Solzhenitsin, A. Sakharov, S. Kovalev e outros famosos dissidentes, contra o totalitarismo soviético.
A idéia da n-v. está exposta na Bíblia e em escritos de outras religiões, na chamada: "não mates". Esta idéia foi desenvolvida por muitos pensadores e filósofos; os escritores russos Leão Tolstoi e Fiodor Dostoievski a formularam com grande profundidade. A fórmula de Tolstoi que promulga a supremacia do amor e o "não emprego da violência ante a maldade", em outras palavras a impossibilidade de lutar contra uma maldade com outra, adquiriu ressonância mundial, engendrando uma seita singular de "tolstoistas".
Mahatma Gandhi (1869-1948) formulou de seu modo a ética da n-v. baseando-se no princípio do ahimsa (rejeição a exercer qualquer forma de violência contra o indivíduo, a natureza, o inseto ou a planta) e na "lei do sofrimento". Gandhi conseguiu organizar a satiasgraja, movimento anti-colonialista não-violento, reunindo muitos milhões de pessoas. Este se manifestou na insubordinação civil maciça e prolongada às autoridades inglesas, negando-se a colaborar com as mesmas, defendendo sua originalidade e liberdade, mas sem recorrer a métodos violentos. O povo chamou a Gandhi "Mahatma" (alma grande) pelo seu valor e inflexibilidade na ação sobre o princípio da n-v. O movimento da n-v. dispôs o terreno para que a Grã-Bretanha renunciasse a sua supremacia na Índia, embora o próprio Gandhi fosse assassinado por um sicário. Lamentavelmente, mais tarde, o princípio de ahimsa foi jogado ao esquecimento. O desenvolvimento político da Índia e o Paquistão se viram tingido com tons sangrentos da mais franca violência.
A luta de M. L. King também concluiu sem triunfar, ele também foi assassinado enquanto fazia uso da palavra em um meeting público.
Apesar de tudo, o conceito de n-v., inclusive a forma não-violenta de protesta, seguem vivas e se desenvolvendo no mundo. As intervenções diárias e em massa das camadas baixas de trabalhadores, mitines e manifestações de protesto, greves, movimentos femininos e estudantis, manifestações camponesas, edições de folhas, volantes e jornais, intervenções por rádio e T.V., tudo isso constitui as formas da ética e prática da n-v.
O N. H. se esforça para minimizar a violência até o limite extremo, superá-la completamente em perspectiva e encaminhar todos os métodos e formas de resolver oposições e conflitos sobre os trilhos da n-v. criadora.
Freqüentemente se homologou n-v. e pacifismo (*), quando na verdade este último não é um método de ação nem um estilo de vida mas uma denúncia constante contra o armamentismo.


NÃO-VIOLÊNCIA ATIVA
Estratégia de luta do N. H. consistente na denúncia sistemática de todas as formas de violência que o Sistema exerce. Também, tática de luta aplicada a situações pontuais nas quais se verifica qualquer tipo de discriminação.

O humanismo se esforça para superar a violência em perspectiva, processualmente. Tomando o caso da autodefesa, levamos a defesa de um conjunto ou a defesa pessoal ao limite extremo, de forma não violenta. É necessário levar ao limite extremo até criar consciência social.
Criar consciência é de onde vão sair imagens, atos, não é qualquer coisa, é algo muito pesado. Criar consciência é instalar um sistema psico-social tal que a violência não tenha cabimento. Contribuir para a criação de uma consciência mundial é algo muito pesado.
Podemos ver isto operando atualmente. Por exemplo, com o ambientalismo ingênuo foi instalada uma consciência social, ninguém sai na rua a bater num cavalo porque é linchado. E isto que está passando é mundializado. Queremos chegar a que se produza verdadeira repugnância física pela violência. E é nesta direção que a ação exemplar fará sentido porque ela enraíza nas pessoas. Então reforçamos isso de que a violência não é só física e diferenciamos as formas de violência, não faremos um chamado meramente anti-belicista, não é só o tema bélico mas são todas as formas de violência. Não podemos confundir o anti-belicismo com a não violência, assim como não é possível confundir o gandhismo com a não-violência. Ao referir-nos à não-violência ativa falamos de todas as formas de violência que o sistema exerce. É importante agora fazer diferenças nestes temas já que quando se traduzam para outras línguas os diferentes materiais que se façam para a MM pode resultar uma marmelada; iremos com precisão nos conceitos. E muito olho com as secundariedades, alguém poderá sair com que o mais importante é o "aquecimento global", a contaminação e não é assim.
Interessa a nós criar consciência social, é uma proposta psico-social. E como dissemos estamos em uma época de jetones, não estamos falando de democracia. E a gente se poderá reconhecer no pior e no melhor do outro, se somos capazes de reconhecer em nós mesmos essas barbaridades, deve ser lutando consigo mesmo.

Agora o assunto é como criamos consciência social. Faz-se através de ações "exemplificares", assim chegamos às pessoas.

Rafa de la R dá seu testemunho pessoal: nos seus recentes dias de retiro em Punta de Vacas, efetuou a seguinte reflexão: "Eu vou fazer a marcha mundial pela paz e a não-violência e o resto que veja como fará".

Rafa falou sobre o testemunho de um jovem na Argentina: "Não sei se vou poder ir à marcha mas para mim é importante que se faça". Está a sensibilidade presente em nosso meio imediato, na sociedade em geral. Por tanto esta MM é um exemplo de mundialização muito interessante e vai ter conseqüências.

Podemos dizer que o marco da MM é criar consciência social pela paz e a não violência, e os três pontos já comentados do dicionário (pacifismo, antibelicismo e não violência) são muito importantes para nós. Devemos ter claro que se nós não fazemos a MM não a podem fazer outros. Em que se apóiam?..., eles não têm estruturas. Só carimbos de borracha.
Gandhi se nutre do Ahimsa: arranca quase 500 anos antes desta era e parte como reação para o hinduismo onde se viam situações de violência. Como exemplo vemos as castas sociais e como caso extremo vemos às viúvas que ao ficar sem seu marido tinham que atirar-se vivas na pira funerária. O Ahimsa sai do Mahavira, dos Jainistas. Ele o desenvolve explicando que não é preciso danar os sistemas nervosos dos seres vivos. Daqueles que tem mais de um sentido. Os vegetais contam com um só (o tato), mas já um micróbio ou algum animal com dois ou mais sentidos não pode ser morto. Eles são evolucionistas e ateus. Depois vem o paradoxo de que seus templos, que são ateus, são tomados pelos brahmanes. Daqui abrevaron Tolstoi e Gandhi. Na atualidade não são mais de 1 milhão, não são religiosos e fazem muita insistência no comportamento. São ateus como o foi Buda, contemporâneo do Mahavira. Época de grande agitação, com Grandes homens como Zaratustra, Pitágoras e outros.

Na MM os Parques cumprirão um papel muito importante, serão pontos de atracado. Vão ser muito importantes para juntar gente. Serão os faróis da MM.

Um ponto que devemos levar em conta é que pode haver diversos focos de conflito ou conflitos mundiais durante este próximo tempo, então temos claro que devido a estes não deteremos a marcha. Veremos de ir sorteando obstáculos onde se nos impeça a passagem.

O que necessitamos é gente com valor, por tanto com uns poucos em cada lugar poderemos iniciar este assunto. Oxalá pudéssemos retomar esses contatos do Egito, em Alexandria, que tem um grande significado histórico e cultural. Trataremos de passar pelas fronteiras das Coréias, por Hiroxima, pelo norte da Índia que faz fronteira com Paquistão, Israel e a Palestina, etc... Queremos que o indivíduo participe, estão isolados do processo, é uma geração que se atola.
Será uma marcha em prol da paz e a não-violência, não contra algo. Contra nada. Vamos pela paz e a não-violência como metodologias de ação e o resto dos países e governos farão sua parte. Esclarecemos, não vamos propor nada dialeticamente, isso era antes, já é um recurso esgotado.

Seria bom que a MM se organize flexivelmente, em comissões como a da Mensagem, e que a gente que queira se faça cargo e leve adiante a MM. Respeito da orgânica, além da geral, que é como uma junta promotora, tem que haver uma orgânica mínima de MSG nos diferentes lugares, onde a gente possa se linkar.

Também será de muito interesse saber que passou naqueles lugares por onde a marcha já passou, ou por onde está passando ou por onde passará. O antes, o durante e o depois deverá ser programado. E, além disso, se podemos ir colando com a imprensa por onde vamos passando, melhor. Também será de interesse contar com um informativo periódico que vá dando conta da MM.


Respeito da Mensagem, as Comissões têm que ter um núcleo de gente à qual se possa somar outra gente. Ali onde se arme uma comunidade da Mensagem terá que haver uma comissão, seja salinha, sala ou sala nacional. As comissões são para sustentar o lugar, fazer difusão, tomar contato com as diferentes organizações, com o meio, etc. Se definirão funções e já estará em marcha. Também haverá que considerar aspectos tais como a forma em que vai se relacionar essa comunidade entre si e como se relacionará com outras comunidades. Sabemos que são dois aspectos muito diferentes. Mas, para iniciar isto, o primeiro que tem que haver é o espírito. Já naquele momento, dentro dos primeiros cristãos se disse: "aí onde se reúnam em meu nome três dos senhores, ali eu estarei".
Não é possível que o hominídeo, que tem já quase 3 milhões de anos sobre a terra não possa organizar-se nesta unidade básica. Minimamente terá que começar já a organizar-se!
Com certeza encontraremos resistências em nosso andar
, mas bem sabemos que para que um circuito funcione corretamente tem que haver uma resistência de carga. Caso contrário, não há movimento cíclico.

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